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Entrevista com Rafael Cortez

O presente
A Revista Pandora encontrou Rafael Cortez, repórter do programa CQC da Rede Bandeirantes, para uma conversa sobre os principais acontecimentos vividos nas atualidades.
O maior desafio hoje, segundo Cortez, é o resgate do ideal jornalista como formador de opinião, da neutralidade e da credibilidade.

O advento de novas ferramentas da web trouxe aos profissionais de gerações anteriores o desafio de adequação às novas formas de informar. Alguns acreditam que o surgimento dessas possibilidades pode contribuir para a banalização da arte de informar, porém Cortez encara essa nova fase com otimismo: “Talvez essas novas práticas possam ser uma ameaça para o jornalismo tradicional. Mas que servem mais para somar do que para ameaçar”, afirma.
Rapidez, instantaneidade, pressa em informar, o desejo de superar os limites da velocidade tecnológica. O jornalismo passa por um processo paradoxal, no qual as diversas ferramentas estão à disposição dos usuários e facilita a comunicação, mas colaboram para que informações sejam cada vez mais superficiais. Sobre essa simultaneidade de processos de mesmo gênero, porém com percursos e ambições contrárias, Cortez afirmou: “ É ilusão pensar que isso ocorre por causa da internet, que tudo isso ganha mais simplicidade, que se torna mais rápido, menos profundo e mais superficial. Já via isso acontecendo. O jornal hoje não tem mais aquela apuração de antes. As coisas estão mais perspicazes ou então vemos como Tom Zé dizia: ‘Jornal derramando sangue’ ”.
Antes de se tornar nacionalmente conhecido, Rafael teve diversas experiências como jornalista, uma delas foi na produção de notícias para celulares. “Era mais ou menos como o Twitter, na verdade, eram alguns caracteres a mais”. O desafio de resumir informações a partir de um número reduzido de caracteres, segundo Cortez “era ridículo e era em plena época do mensalão, como era possível se atualizar em pouco mais de 200 caracteres?”. Cortez vê essa maneira compacta de informar como um problema e conclui: "Não acho, porém, que seja sensitivo apenas nesse circuito de internet, de novas mídias. Eu acho que o jornalismo em geral está pobre e preguiçoso.”
O Twitter é uma nova onda que causou uma veloz revolução na internet. O movimento “Fora Sarney” teve grande repercussão da mesma forma que a campanha de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos. A ferramenta interagiu e diminuiu a distância entre eleitores dos candidatos e se firma como um auxílio na melhoria política. Rafael acredita que pode ajudar a aproximar a notícia do público, a comunicar mais os fatos. Entretanto, “ninguém vai se informar, se politizar, melhorar seu conteúdo através dele. Talvez seja bom para provocar interações e debates entre as pessoas. Na minha opinião, o que educa é o livro. Sou cada vez mais fã de livros. Acho que, ao invés de ficar massacrando os alunos com aqueles velhos clássicos, as escolas poderiam incorporar boas obras que focassem cada vez mais na formação cultural, política das crianças. Tudo isso para que os alunos começassem a criar uma visão de sociedade a partir da primeira educação. O Twitter pode ser um auxílio na interação, na aproximação de pessoas e pode gerar discussões enriquecedoras acerca de diversos assuntos. Mas a mudança e a educação dependem de bons livros e professores”.
Em decorrência de um mercado cada vez mais competitivo e exigente, o ensino superior tornou-se essencial em qualquer área. Nos últimos anos, o jornalismo tem sido um dos cursos mais procurados tanto nas universidades públicas quanto particulares. Contudo, o desejo de ingressar no mercado supera, em muitos casos, a realização de projetos e idéias inovadoras de muitos estudantes. Cortez supõe que isso acontece por causa das faculdades, as quais não possuem premissa de provocar experimentação, troca de idéias e questionamentos em cima de textos.
A polêmica sobre a não obrigatoriedade do diploma de jornalismo mobilizou diversos universitários, instituições de ensino e empresas de comunicação, algumas a favor e outras contra a decisão do STF (Superior Tribunal Federal). Essa situação obrigará muitas instituições a repaginarem seus cursos para que o profissional conquiste uma maior bagagem cultural. Rafael Cortez afirma que “o principal prejudicado dessa decisão tomada pelo STF ainda é a universidade, pois é um desestímulo à inserção do aluno a espaços universitários. Muita gente vem perguntar para mim se vale a pena. As pessoas pensam em fazer o curso, mas ficam inseguras quanto ao mercado.”
Com a decisão do STF qualquer um pode ser jornalista e isso alimenta um pouco na sociedade uma idéia de Macunaíma, ou seja, uma multidão sem pátria. Cada indivíduo tem em si a idéia de que não há necessidade de estudar, pois pode ser presidente da república ou jornalista. Não há mais a valorização do conhecimento, da educação nem do jornalismo como um serviço à sociedade. “Não vejo mais nenhum jornalista nato daquele que eu exclame ‘Nossa, esse cara está preocupado com a notícia’, ou que estejam comprometidos com o papel de formador de opinião. Parece um conceito jogado às traças.”, afirma Rafael.
 
Um dos fatores que o STF alega para não exigir o diploma é que a profissão é inconstitucional, pois é de lei que todos são livres para expressar o que quiserem. Mas o jornalismo não é isso. É “informar para transformar”, um serviço necessário à sociedade em geral e que exige uma formação profissional para exercê-lo de maneira correta e equilibrada. A aprovação de tal medida contribui para que a apuração de notícias sejam uma medida irrelevante. Dessa maneira há o risco de que episódios importantes para a sociedade sejam superados por banalidades, ou seja, infringe numa futura perda de credibilidade na imprensa. Cortez já vê que o jornalismo está perdendo a credibilidade e que inclusive os próprios jornalistas estão desacreditados: “Existem muitos profissionais insipientes que exercem a profissão de maneira irresponsável em contraponto aos que fazem uma contribuição significativa.”

Os jornalistas que deveriam escancarar verdades silenciadas numa investigação criteriosa, por falta de interesse, preocupação e até de ética, mostram a realidade como se ela fosse apenas uma vitrine.
Por sua vez, a opinião pública oscila e não se consolida. A consciência da responsabilidade social que contribui para um mundo mais aberto e democrático e à uma sociedade que compreende melhor a si mesma e ao mundo, se perde em ângulos congruentes dos acontecimentos.

A prática jornalística tem passado por uma série de mudanças ao longo dos últimos trinta anos. A sonhada liberdade de expressão e de imprensa “que tantos defenderam com unhas e dentes” culminou numa atual “liberdade de empresa”. A monopolização da informação nas mãos de verdadeiros senhores feudais da comunicação contribui também para que a credibilidade do profissional de informação seja colocada em xeque. “O desejo da liberdade de expressão na época da ditadura equivalia ao sonho da casa própria na época do Collor. É uma coisa que foi tão desejada, tão batalhada, foi tão deslumbrada. Acho que é um direito nosso, mas que muitas vezes é mal empregado, ou seja, em nome da liberdade de expressão as pessoas podem falar o que querem, podem empregar o mau jornalismo, pode surgir as figuras desagradabilíssimas dos paparazzi, de pessoas que se utilizam da credencial rotulando-se como jornalistas. Mas também em nome da liberdade de expressão você tem revista interessantes, inteligentes, professores bacanas, cursos legais dando continuidade à uma formação sólida. Ainda gosto mais da liberdade de expressão do que desaprovo.”
Mentiras, loucuras, doenças, mortes, paixões. O caos sai da caixa de pandora todos os dias. As mídias – TV, rádio, jornal, revista, internet – imortalizam os fatos espetaculares do cotidiano com palavras e imagens. A notícia não informa mais, não transforma mais, perdeu a sua essência funcional, somente entretêm as pessoas durante sua programação, provocando mais absorção de conteúdo do seu público do que reflexões instigantes ao senso crítico. “A mídia mais expoente, os programas mais assistidos eles não têm essa capacidade.”, afirma Cortez, e ainda confessa que sente que as pessoas se mostram cada vez mais indiferentes à informação, aos fatos políticos, e “têm uma necessidade de absorver rapidamente conhecimento sem precisar refletir sobre os fatos”. Essa situação é um reflexo da acomodação das grandes corporações em simplesmente “comunicar as coisas”. O jornalismo sensacionalista transforma o valor de notícia, gerando a perda de sua principal função de informar com credibilidade e imparcialidade.

As pessoas estão submersas em imediatismo e as maneiras que os grandes jornais contribuem para a satisfação dessas necessidades, faz Rafael Cortez acreditar que “os grandes jornais que estão em pauta e são vistos e lidos por tanta gente cotidianamente não são grandes fontes de conhecimento, não são fontes de muito conteúdo, pois não há aprofundamento de nada.”
Porém, é importante olhar o que tem no fundo da Caixa de Pandora. “Existe um mercado promissor nesse meio da mídia alternativa. Aliás, o circuito alternativo, de um modo geral, virou uma solução de inserção de trabalho, de conhecimento, de esperança, um oásis”. Cortez afirma com base em sua própria experiência.

Em 2005, Rafael gravou um CD independente de música instrumental com a intenção de lançá-lo por uma gravadora. “Eu era um cara desconhecido, visionário, iludido, romântico até o meu CD parar nas mãos do produtor Roberto Menescau que me disse ‘Seu som não interessa a ninguém no circuito comercial. Ninguém vai querer saber de você no circuito agressivo, oficial, mas no circuito independente tem uma oferta enorme pra você.’ A partir de então eu comecei a trabalhar com tudo no alternativo sem cair no comum. Eu fazia tudo no independente desde o trabalho de músico até no teatro, depois no jornalismo e, a partir deste, consegui o trabalho no CQC e estou aqui.”

Dessa maneira, Cortez afirma que paralela às grandes corporações da notícia há um mercado de grande riqueza: a mídia alternativa e conclui: “É uma pena que esse mundo alternativo não tenha tanta visibilidade quanto os grandes jornais, e dificilmente terão, mas aos poucos as pessoas que expressam suas idéias de maneira independente conquistarão seu espaço. Jornais alternativos assim são os que eu apóio. O compromisso com o papel de formador de opinião, que é aquele ideal clássico do jornalismo e que as pessoas estão abandonando, não é desestimulado. Estão publicando para poucas pessoas com a intenção de falar com milhares. Mas só nesse pequeno público você já influenciaram a opinião de dez, quinze, cinqüenta pessoas! Acho que nessas iniciativas, às vezes, as pessoas ficam trabalhando em uma esfera de produtos e coisas que parecem não interessar a ninguém, mas um dia isso dá algum resultado".
O CQC, criado na Argentina e adaptada para o público brasileiro, é o resultado de uma reinvenção do jornalismo de uma maneira criativa e ética. Contudo, Rafael Cortez não gosta dessa glamourização em cima do programa já que é "um programa que tem problemas como qualquer outro e que tem que mostrar serviço o tempo inteiro. Essa premissa toda de qualidade, de reinvenção, de jornalismo de entretenimento fez com que esteja atrelado ao ideal de pretensão e é uma cobrança violenta. O Tas diz que temos um telhado de vidro em 2009, e é verdade, pois tem uma galera esperando o primeiro lapso. Ninguém mais ficar lembrando dos êxitos, das coisas que a gente conseguiu. Na hora que dermos uma “bola fora”, tudo isso vai sumir.”

2 reflexões:

Raquel Almada M. Salema disse...

Muito boa a matéria!!
Estão de parabéns!!!

Isa :) disse...

Também não concordo que não precise de diploma para ser jornalista, talvez seja a idéia errada de jornalismo que a maioria das pessoas têm. Parabéns por vocês estarem mudando o jornalismo mediocre e preguiçoso!

Muito boa a matéria mesmo! Estão de parabéns!

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