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Entrevista com José Salvador Faro

A profecia jornalística


Pedimos para o professor de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), José Salvador Faro profetizar o jornalismo, mas ele acredita apenas em suposições. "Eu imagino que o jornalismo está passando por um processo de dilatação conceitual. Ele era sustentado pelo objetivo de ser uma prática profissional restrita e as tecnologias detonaram essa idéia a ponto de se questionar o próprio fundamento do jornalismo, se ele deve trabalhar só com a informação pura e simples, se deve trabalhar com a interpretação. Isso também colocou em xeque a própria especialização do jornalismo. Chegou-se ao extremo de pensar que qualquer pessoa pode ter o seu próprio jornal, é uma promessa que a técnica faz, mas ela certamente não preenche o jornalismo. Então ele passa por uma contradição, ele se dilata no processo de produção, mas restringe suas possibilidades de aprofundamento. São dois movimentos: um movimento que se dá na horizontal, que a tecnologia permite, mas o movimento que se dá na vertical a tecnologia inviabiliza, pois para acompanhar a velocidade e a dimensão da técnica eu tenho que abandonar a profundidade em favor de uma outra dimensão do tempo."

Faro prevê uma situação de permanência dessa contradição durante um bom período, pois se o jornalista for atrás das promessas que a técnica faz, ele abandonará sua promessa de aprofundamento. Se ele for atrás do aprofundamento, "coisa que eu acho muito difícil numa sociedade como a nossa acompanhar", ele fica superado pela técnica. O Professor não tem uma visão positiva "não no sentido de ser boa, concreta, objetiva". E por mais que ache a palavra profetizar pesada, ele afirma que o jornalismo está vivendo uma crise de longa duração, pois essas questões não serão resolvidas apenas numa década. Segundo ele, esta crise, contudo, não é decorrente apenas do surgimento da internet ou das mídias que nascem a todo momento.
"Eu acho que essa crise já está em gestação desde quando começamos a perceber que alguns valores padrões da sociedade moderna entraram em crise, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. Na verdade, isso já havia acontecido no final do século XIX, mas depois da Guerra essa situação se intensificou. Padrões clássicos de leitura do mundo já não são suficientes para interpretar toda a sua complexidade. Logo, o jornalismo é parte desses padrões clássicos de visão de mundo, um fruto da modernidade que foi entrando em crise junto com outros processos, como o conhecimento científico, as várias teorias que explicam o mundo como o próprio jornalismo."

Para ele a arte não se ressente tanto da internet como o jornalismo, pois ela buscou novas linguagens. A revolução tecnológica parece que vem aprofundar em nível inimaginável todo esse conjunto de crises que significam rupturas e que nos põem à deriva. Ela se deu sobre os meios de comunicação e influenciou diretamente esta profissão, uma vez que lida com a matéria-prima das próprias mudanças técnicas, que é a informação."Se uma informação demora para chegar até o destinatário isso diz respeito apenas ao veículo de informação, não diz respeito à concepção da arte ou algo do tipo. Esse impacto foi muito preciso, foi nevrálgico, pega no nervo do jornalismo."

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